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Radar da Descomoditizacao
16 de outubro de 2026  ·  1 case, 4 mencoes
Case do dia
A construtora que escolheu o comprador que nao sente a Selic.
Com Selic a 15%, o setor imobiliario de renda media e alta esta em colapso. A Cury Construtora registrou ROE de 73,6% no 2T26 e confirmou 30 trimestres consecutivos de caixa positivo. O produto e o mesmo. O modelo nao.

A Cury Construtora e Incorporadora atua exclusivamente no segmento de habitacao popular, o Minha Casa Minha Vida, com foco em Sao Paulo e Rio de Janeiro. O produto que ela entrega e um apartamento de renda popular: mesmo metro quadrado, mesmo padrao de acabamento, mesmo endereco do concorrente.

Com Selic a 15%, construtoras do alto padrao estao sofrendo. A Even Construtora, por exemplo, registrou queda de 42,2% no lucro ajustado no primeiro trimestre de 2026 e passou de gerar R$ 166 milhoes de caixa para queimar R$ 55,6 milhoes. Mesmo setor, mesmo pais, mesmo trimestre.

A Cury foi ao contrario.

No segundo trimestre de 2026: ROE de 73,6%. Lucro de R$ 270,5 milhoes, alta de 14,3%. Receita de R$ 1,69 bilhao, crescimento de 25,5%. Em outubro, a previa operacional do terceiro trimestre confirmou o 30º trimestre consecutivo de geracao de caixa positiva. Sete anos e meio seguidos, com Selic variando entre 6% e 15% nesse periodo.

A diferenca nao esta no produto. Esta no comprador escolhido.

O produto e commodity. O comprador escolhido e o sistema.

O comprador do Minha Casa Minha Vida nao financia pelo mercado. Ele usa o FGTS, o Fundo de Garantia do Tempo de Servico, com taxas de financiamento habitacional de 4% a 8,16% ao ano. Quando o Banco Central sobe a Selic de 10% para 15%, esse comprador nao sente nada. A prestacao dele nao muda.

O segundo mecanismo e o credito associativo: a Caixa Economica Federal aprova o financiamento antes da obra comecar, a taxas subsidiadas pelo FGTS. O banco paga a construtora conforme a obra avanca. Resultado: sem risco de inadimplencia na carteira propria, sem capital travado em recebiveis. A Cury recebe enquanto constroi.

Esses dois elementos, combinados, isolam a Cury de duas das principais pressoes que atingem concorrentes: a queda de demanda causada pelo credito caro e a queima de caixa causada pela demora na quita do comprador.

comprador do credito de mercado
comprador do FGTS

Mas sera que qualquer construtora poderia fazer o mesmo? Tecnicamente, o credito associativo esta disponivel no mercado. A diferenca e que a Cury o executa ha 30 trimestres com caixa positivo. Sete anos de entrega consistente constroem reputacao com a Caixa Economica que nao se replica em 12 meses. O land bank em bairros especificos de Sao Paulo e Rio de Janeiro levou anos para ser construido. E o conhecimento acumulado de gestao de prazo e custo em MCMV nao se contrata numa consultoria.

O tempo depositado aqui nao se aluga. E o sistema.

 
Resumo

Numeros centrais (fonte: Release Cury 2T26 e Previa 3T26): ROE de 73,6% no 2T26; lucro de R$ 270,5 mi (+14,3% a/a); receita de R$ 1,69 bi (+25,5% a/a); 30 trimestres consecutivos de caixa positivo confirmados na previa de outubro de 2026.

Por que isso nao se copia em doze meses: relacionamento de decadas com a Caixa Economica para credito associativo; land bank construido ao longo de anos em bairros especificos de SP e RJ; conhecimento acumulado de gestao de prazo e custo em MCMV acumulado em 30 trimestres de entrega.

Por que o modelo se sustenta: quatro escolhas que se reforçam. Definiu o comprador certo: usuario de FGTS, imune a Selic. Abriu o caminho que outros ignoravam: credito associativo com a Caixa. Reduziu a comparacao: no MCMV, o preco e regulado pelo programa, o comprador nao pechincha. E expandiu o kit: land bank construido ao longo de anos, dominio operacional acumulado em 30 trimestres.

Nota de escopo: empresa listada na B3 (CURY3, Novo Mercado). Numeros de ROE e lucro vem de release trimestral submetido a CVM. O dado "30 trimestres" vem de previa operacional publicada em 8 de outubro de 2026. Even Construtora usada como contraste, com dados de release proprio (1T26).

 
O que voce leva disso

O produto da Cury e o mesmo do concorrente. O que e diferente e o comprador que ela escolheu atender.

Toda empresa tem segmentos de cliente com sensibilidades diferentes ao ciclo economico. O comprador de alto padrao sente a Selic no bolso imediatamente. O comprador do MCMV, nao. Essa diferenca de sensibilidade muda a dinamica de margem, previsibilidade de receita e necessidade de capital.

A Cury descobriu qual era o seu comprador de menor sensibilidade ao ciclo. E construiu trinta trimestres em cima dessa descoberta.

Acao de segunda: olhe para os seus segmentos de cliente. Para cada um, pergunte: qual e a sensibilidade desta venda ao ciclo economico? O segmento menos sensivel e o que voce deveria ter priorizado primeiro.

 
No radar · 4 mencoes

Even Construtora (EVEN3) queima caixa no mesmo setor. No primeiro trimestre de 2026, a Even registrou lucro ajustado de R$ 47 mi (queda de 42,2% em relacao ao mesmo periodo do ano anterior) e passou de gerar R$ 166 mi em caixa para queimar R$ 55,6 mi. Mesmo setor, mesmo pais, mesmo trimestre que a Cury crescia. A diferenca nao e de mercado: e de comprador escolhido. ler ›

Veloe mira R$ 10 bilhoes e avanca em gestao de frotas. A empresa de tag de pedagio ja tem 70% do volume transacionado vindo de servicos B2B: gestao de frota, abastecimento e frete para empresas. A meta e R$ 10 bi em transacoes em 2026. Quando o cliente usa a plataforma para gerir a frota inteira, ele nao troca de fornecedor porque o produto ficou mais barato: ele trocaria de operacao. ler ›

QualityStorm vence Premio Sebrae Startups 2026. A startup paranaense de IA para controle de qualidade industrial ganhou R$ 250 mil equity-free entre mais de mil concorrentes. A proposta: substituir a inspecao manual do tecnico por IA detectando defeitos em tempo real na linha de producao. Muda o interlocutor (da qualidade para operacoes) e muda a conversa de preco para resultado. Forca: 🟡 (premio verificado; sem numero de cliente publicado ainda). ler ›

Exportacoes de vinho brasileiro crescem 23,7%. As exportacoes de vinho do Brasil somaram US$ 6,79 milhoes no primeiro semestre de 2026, alta de 23,7%. O vinho nacional chegou a 79 paises, alta de 20,4% no numero de destinos. Ainda pequeno em valor absoluto, mas a direcao e clara: quem sai da cotacao de uva a granel e constroi rotulo com identidade propria passa a competir em outra prateleira, com outro comprador. ler ›

 
Mauricio Schneider
Mauricio Schneider
 

Este Radar e o livro.

Enquanto fecho o Radar toda semana, estou fechando o livro. Nao escrevi porque li. Escrevi porque vivi, e quebrei a cara o suficiente pra saber o que e sistema e o que e sorte. Sai em outubro de 2026, pela Alta Books.

Se quiser estar na lista quando abrir: entra na lista.

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