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Radar da Descomoditização
17 de setembro de 2026  ·  1 case, 4 menções
Case do dia
A bebida que você nunca provou tem 30% de margem. A Coca-Cola inveja.

A Nichols PLC vende o concentrado e a marca Vimto, uma bebida britânica criada em 1908, para distribuidores e fabricantes licenciados em mais de 60 países. A versão pronta chega ao consumidor como xarope diluído em água ou como refrigerante. No Oriente Médio, o distribuidor é a família Aujan, sócia da Nichols há mais de 90 anos. No UK, a marca é vendida diretamente ao varejo.

Os resultados do primeiro semestre de 2026 mostraram que o segmento Packaged da Nichols registrou 30,2% de margem operacional ajustada, com £ 21,2 milhões de lucro operacional ajustado (fonte: Nichols PLC H1 2026). No semestre anterior: 29,1%. A margem está crescendo. E a pergunta que esse número faz é: por que uma bebida que a maioria dos brasileiros nunca provou tem o poder de preço que marcas com bilhões em verba de marketing não têm?

Você não compra de volta cem anos de tradição materna com uma campanha sazonal.

Em 1927, a família Aujan levou o Vimto para a Arábia Saudita e colocou na mesa do Iftar, a refeição que quebra o jejum do Ramadã ao pôr do sol. A escolha faz sentido fisiológico: o xarope tem alto teor de açúcar, repõe energia rápida depois de horas em jejum. Mas o que acontece a seguir não é fisiologia. É acumulação de tempo.

As mães começaram a preparar o cordial do jeito da família. Com uma especiaria que só elas sabiam qual. Com mais ou menos açúcar, com mais ou menos água. E ensinaram as filhas. Que ensinaram as netas. Por cem anos seguidos.

Hoje, segundo o Gulf News, o Vimto tem aproximadamente 90% de participação de mercado no segmento de cordiais na Arábia Saudita durante o Ramadã. Trinta e cinco milhões de garrafas por ano no Golfo Pérsico, com cerca de 20 milhões apenas durante o mês do Ramadã. Há anos em que as lojas racionam a venda a duas garrafas por cliente no período.

A Coca-Cola faz campanha de Ramadã todo ano no Oriente Médio. E o Vimto não para de crescer.

O que sustenta a margem de 30,2% não é tecnologia nem monopólio legal. É a combinação de dois mecanismos:

Modelo concentrado: a Nichols não fabrica o produto acabado no Oriente Médio. Ela vende o concentrado para o Aujan, que assume toda a fábrica, logística e distribuição. A Nichols captura a margem do intangível, sem o custo do físico. O parceiro tem o investimento em planta. A Nichols tem o poder de preço.

Inelasticidade ritualística: bebida commodity tem relação direta entre preço e demanda: sobe o preço, cai a demanda. Bebida ritual tem essa relação quebrada. O Vimto não compete com a Coca-Cola no Ramadã. Ele compete com a memória da mãe preparando o cordial. São categorias diferentes. Uma se ganha com verba. A outra não se compra.

A frase de escopo: esses 30,2% valem para o segmento Packaged (£ 21,2 milhões de lucro operacional ajustado no H1 2026). A margem do grupo inteiro, incluindo o canal fora do lar, é de 16,8%, ainda muito acima da média do setor.

 
Resumo

Por que isso não se copia em doze meses: a Nichols passou 115 anos depositando valor em cinco camadas: Singularidade (única bebida do Iftar no Golfo), Ancoragem (no momento mais insubstituível do islã), custo de substituição emocional (trocar o Vimto não é trocar de bebida, é contradizer a tradição), Tempo (o ativo que a Coca-Cola não pode comprar), e Oferta (modelo concentrado, captura de margem no intangível). Nenhuma dessas camadas foi construída num único trimestre.

O que o acervo complementa: a edição da Granado (5/7/2026) mostrou o mesmo padrão com 180 anos de formulação inalterada: "saber o que não mudar é sistema". O Vimto faz a versão intercontinental: a receita não mudou, o ritual que se construiu ao redor dela foi o ativo.

O que NÃO se afirma: o dado de ~90% de participação de mercado vem de fontes jornalísticas (Gulf News, Time Out Dubai), não de auditoria de mercado. A cifra é amplamente citada e alinha com a lógica dos resultados financeiros, mas não está no balanço da Nichols. O balanço confirma o resultado, a margem de 30,2%, não a participação de mercado diretamente.

O limite do caso: a Nichols tem receita de £ 175 milhões por ano e é empresa de médio porte. O modelo funciona porque a marca foi construída em mercados onde as grandes multinacionais chegaram tarde. Em mercados onde a Coca-Cola chegou primeiro, a equação é outra.

O que levar disso para o seu negócio: escreva numa folha os 10 clientes mais antigos. Do lado de cada um, escreva uma coisa que você faz por eles que virou rotina, não escolha consciente. Onde há rotina, há poder de preço que você provavelmente ainda não cobra.

 
O que você leva disso

O Vimto não foi construído com estratégia de "construir ritual". Foi uma coincidência de momento, produto e intermediário cultural (a família Aujan). O que a Nichols fez foi não destruir o que o tempo construiu. Não rebatizou a marca para ser global, não reformulou a receita para competir em outra categoria, não saiu do Oriente Médio atrás de escala.

O que fazer na segunda-feira: escreva numa folha os 10 clientes mais antigos da sua empresa. Do lado de cada um, escreva uma coisa que você faz por eles que virou rotina deles, não escolha consciente. Com que recurso: a lista de clientes que você já tem e 10 minutos. Essa lista é o mapa dos seus rituais. Onde há ritual, há poder de preço que você provavelmente ainda não cobra.

 
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Mauricio Schneider
Mauricio Schneider
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