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Radar da Descomoditização
11 de agosto de 2026  ·  1 case, 4 menções
Case do dia
A construtora que subiu o preço no mercado tabelado.
No Minha Casa Minha Vida (MCMV) o governo define, o banco financia e a lei faz o teto. No 2T26, a Tenda subiu o preço mesmo assim.

No MCMV, o governo define quem pode comprar, o banco define o prazo e a lei define o teto de valor por unidade. Nesse ambiente, a leitura padrão de qualquer analista de construção civil é: preços tendem a se igualar, margens tendem a convergir. A Construtora Tenda decidiu que essa leitura era o piso, não o teto.

No segundo trimestre de 2026, a empresa registrou preço médio por unidade de R$ 244,9 mil, alta de 9,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. A margem bruta ajustada atingiu 40,4%, novo recorde histórico. O EBITDA ajustado (resultado operacional antes de depreciação e amortização) foi de R$ 275,2 milhões, crescimento de 65% em doze meses. O ROE (retorno sobre patrimônio) chegou a 42,6%. No mesmo trimestre, uma das principais concorrentes reportou resultado abaixo das expectativas, com lançamentos caindo 11% no Brasil.

Mesmo programa habitacional. Mesmo ambiente regulado. Resultado diferente.

 
O que a Tenda fez de diferente.

A Tenda concentrou seus lançamentos nos projetos de maior valor dentro do teto do MCMV, as chamadas unidades de Tier 3, com sacada, piscina e maior área. Em vez de perseguir volume no segmento mais básico do programa, a empresa escolheu para quem servia dentro das regras e não abriu mão da margem quando o mercado pressionou.

Isso não é só uma decisão de mix de produto. É uma posição sobre o que a empresa não vai fazer: não vai competir por lançamentos a qualquer margem. E é exatamente essa recusa que os dados medem.

A disciplina de dizer não para o volume fácil é a parte que nunca aparece em release de resultado. A Tenda registrou um trimestre com menos unidades lançadas que o possível e mais margem que a concorrência. Essa combinação não é acidente.

 
O que "commodity" significa aqui.

No MCMV, o produto básico (apartamento de um dormitório com acabamento padrão) realmente tende a commodity: financiamento igual, planta igual, bairro parecido. O que a Tenda encontrou foi a segmentação dentro do programa, o Tier 3, onde o comprador quer mais e está disposto a pagar o teto. Essa é a fissura no mercado tabelado.

MRV, maior construtora popular do país, reportou lançamentos caindo 11% no Brasil no mesmo trimestre em que a Tenda elevou o preço médio. Dois players, mesmo programa, decisões opostas, resultados opostos.

Ponto de honestidade: o lucro líquido caiu 12,2%, para R$ 179 milhões, porque despesas financeiras cresceram sobre o EBITDA. Vale a ressalva de ciclo: parte do resultado vem do ciclo, a expansão do MCMV em 2026 ajuda todos os construtores. O diferencial é a performance dentro do mesmo ciclo, não acima dele.

Commodity não é o produto. É o que acontece quando você deixa a planilha do setor definir o seu preço.
 
Resumo
O que virou modelo, e não campanha
Concentrar lançamentos no Tier 3 e não abrir mão da margem quando o mercado pressionou é uma decisão estrutural: mexe no DNA da empresa, vai contra todos os incentivos de curto prazo de uma listada com meta de lançamentos. O resultado operacional da Tenda (EBITDA e margem) registrou recordes históricos. O lucro líquido caiu 12,2%: despesas financeiras cresceram. A peça fala da decisão operacional, não do resultado financeiro. E os números da decisão são todos 🟢 econômico primário.
A assimetria do mercado tabelado
O MCMV, com teto de preço regulado, pareceria o pior mercado para cobrar mais. A Tenda mostrou que dentro do mesmo teto regulado há segmentação de perfil de comprador: quem está na faixa superior do MCMV quer sacada e piscina, e está disposto a pagar o teto máximo. Identificar essa fissura e construir o produto certo para ela é o que os dados medem. Não é diferenciação de produto genérica: é seleção de quem você serve dentro de uma régua que o governo define.
O que a Tenda ainda não tem
2 de 5 lock-ins do sistema completo. Não tem recorrência de compra (ninguém compra MCMV duas vezes seguidas), não tem rede de usuários. O sistema em construção sao o processo integrado de obra (gestão própria) e a expertise de mix de produto. Suficiente para o diferencial de agora; insuficiente para chamá-la de descomoditizada. Um concorrente pode ajustar o mix de produto também. O que não se copia em 12 meses é a disciplina de não perseguir volume quando a pressão de curto prazo empurra nessa direção.
O que este case não afirma
Que a Tenda está descomoditizada. Que o lucro líquido cresceu (caiu 12,2%). Que o crescimento do MCMV em 2026 não ajudou: ajudou todos os construtores. Que o resultado independe de ciclo: o ciclo de expansão do programa beneficia o setor. O diferencial que a peça mostra é a performance dentro do ciclo, não acima dele.
 
No radar · 4 menções

Vulcan Materials Q2 2026: pedra britada com +5% de preço, apesar de US$ 40 milhões de custo extra de diesel. A empresa opera 425 pedreiras em 24 estados americanos e manteve o EBITDA em US$ 654 milhões mesmo com custo de diesel disparando. O CEO na earnings call: "Nós usamos o Vulcan Way of Selling, o time não briga por preço." Aggregate (pedra britada) é literalmente rocha. A Vulcan tem poder de preço sobre ela porque suas pedreiras têm posição geográfica que ninguém substitui, e porque o time de vendas foi treinado a não entrar em guerra de preço por algo que o comprador não consegue buscar longe. ler ›

Klabin 2T26: EBITDA de R$ 2 bilhões, papéis e embalagens +6% em trimestre pressionado. A única produtora brasileira integrada verticalmente em múltiplos formatos de embalagem (kraft, caixinha de leite e suco, papelão ondulado) manteve custo por tonelada estável em R$ 3,2 mil mesmo com inflação e custos logísticos subindo. A integração vertical das florestas à embalagem é o que os importadores não têm. ler ›

Savegnago: R$ 7,9 bilhões em supermercado do interior, 85% das vendas rastreadas. A rede de Sertãozinho (SP) nao empurra marca própria. Ela mapeia as marcas líderes de cada região e estoca o que o cliente quer comprar. 85% das transações rastreadas via CRM (sistema de relacionamento com o cliente). 25% do lucro distribuído para os 14 mil funcionários todo ano. Resultado: 6º maior grupo supermercadista do estado, 1º do interior, crescendo sistematicamente em cidades acima de 45 mil habitantes. ler ›

Tegma 2T26: receita +36,9% em logística automotiva especializada. A Tegma movimenta veículos novos e usados das montadoras para as concessionárias, com gestão de pátio e logística integrada. Receita de R$ 740 milhões no trimestre, EBITDA de R$ 138,5 milhões e margem de 18,7%. Nao é logística genérica: é especialização de décadas com relacionamentos estabelecidos com todas as montadoras presentes no Brasil. Quando o setor automotivo cresce, quem tem o trilho instalado colhe junto, sem precisar disputar contrato por preço. ler ›

 
Mauricio Schneider
Mauricio Schneider
Especialista em Descomoditização
 
Este Radar é o livro.

Cada empresa que aparece aqui é um sintoma da mesma coisa: valor que se constrói no sistema, não no produto. O caso é o que dá pra ver. O sistema por baixo virou livro. O Segredo da Descomoditização, Alta Books, outubro de 2026.

Todo dia eu te mostro uma empresa que saiu da cotação. Em outubro te mostro como: entra na lista.

 
Radar da Descomoditização
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