‹ Todas as ediçõesReceber por e-mail ›
 
Radar da Descomoditização
10 de agosto de 2026  ·  1 case, 4 menções
Case do dia
O Bradesco não subiu a taxa. Ele mudou de porta.
Dez trimestres seguidos de melhora. E a explicação que o release oferece é a menos interessante das duas.

No 2T26 o Bradesco entregou lucro recorrente de R$ 7,05 bilhões (+16,2%), retorno sobre patrimônio (ROE) de 16,2% e margem financeira com clientes de R$ 20,19 bilhões (+13,8%). É o décimo trimestre consecutivo de melhora desde o começo do plano, em novembro de 2023.

A leitura fácil, e é a que o próprio release sugere, é que o banco passou a escolher melhor quem toma crédito. Só que "selecionar melhor" e "cobrar mais caro" são a mesma frase dita duas vezes. Cortar cliente que quer taxa barata é subir preço com nome técnico, e todo banco grande sabe fazer isso.

Se critério de carteira fosse singularidade, o Bradesco seria singular desde 1990. O que aconteceu é maior, e é de posicionamento.

 
O que ele realmente fez: decidiu para quem existe.

Criou uma faixa nova de marca, o Principal, acima do Prime e abaixo do Private, para renda acima de R$ 25 mil por mês. Não como linha de planilha: com escritório em esquina de riqueza (Faria Lima com JK, Leblon, Campinas) e meta de 1 milhão de clientes até o fim de 2026.

Reposicionou a marca. A assinatura nova, que pelo próprio manual vem antes do logotipo, é "Você primeiro."

E fez a parte que ninguém comemora em release: cortou a rede de 9,3 mil pontos de atendimento para 4,1 mil. Só em 2024 fechou 390 agências e 903 postos.

Isso não é ajuste de planilha, é troca de modelo: custo de servir diferente por faixa, físico e caro para quem paga, digital e barato para a massa.

 
A parte incômoda: tudo isso o vizinho já tinha.

Flagship de alta renda o Santander abriu em 2023. Cartão de topo o Itaú tem no Personnalité Nível 6. Marca de ultra-alta renda o BTG e o C6 já operam. Faixa entre o Prime e o Private, todo banco grande tem.

Diferenciação é copiável por definição. Essa foi copiada antes de nascer.

A singularidade do Bradesco é outra, e ele ainda não a reivindicou. Itaú e Santander precisam comprar no mercado aberto quem já é rico. O Bradesco pode promover quem já está dentro de casa: são 90 milhões de clientes, muitos há décadas, e ele sabe quem está subindo antes de qualquer concorrente.

Escritório na Faria Lima se copia em seis meses. Vinte anos de histórico de um cliente que nunca foi seu não se compra com campanha.

 
Por que importa para o seu negócio.

A lição não é "corte o cliente barato". Isso é só subir preço, e qualquer um faz.

A lição é que você provavelmente já tem, na sua base, o cliente que cresceu e que você continua atendendo igual atendia há dez anos. Ele mudou de faixa e você não percebeu. Enquanto isso, alguém que nunca o atendeu está gastando dinheiro para conquistá-lo.

Quem tem histórico tem vantagem, mas só se usar. Histórico guardado em gaveta não é sistema, é arquivo.

Quem, na sua base hoje, já cresceu e você ainda trata como cliente novo?

Escritório se copia. Vinte anos de histórico, não. Isso tem nome.
 
Resumo
O que virou modelo, e não campanha
Fechar 390 agências e 903 postos num ano, e sair de 9,3 mil para 4,1 mil pontos em seis anos, é mudança estrutural: não se desfaz quando o juro cai. O reposicionamento de marca sozinho seria só campanha. É o corte de rede que dá lastro ao discurso, e é justamente a parte que o release não conta. O banco fez a cirurgia e anunciou um abraço.
A assimetria que ninguém pode copiar
Todo concorrente pode abrir escritório na Faria Lima. Nenhum pode chegar num cliente e dizer que o acompanha desde a primeira conta. Essa é a diferença entre um funil de aquisição e um funil de promoção, e é o único ativo do Bradesco que não está à venda.
Segmentar não é personalizar
Separar cliente por faixa de renda é o primeiro degrau, e é onde o banco está. Ele diz estar investindo em tecnologia e inteligência artificial para personalização em escala, o que seria o degrau da antecipação: saber o que o cliente vai precisar antes dele. Enquanto ficar na faixa de renda, o movimento continua copiável. O retorno sobre patrimônio (ROE) de 16,2% ainda está abaixo do Itaú (24,3%).
O que este case não afirma
Que o Bradesco descomoditizou: ele está em diferenciação, e a categoria que escolheu está esquentando. Quando todos usam as mesmas palavras (atendimento dedicado, espaço remodelado, experiência premium), o cliente compara item por item e a disputa vira escalada de benefício sem mudança de custo, o livro chama isso de recomoditização em curso. Ele não chegou num oceano azul, chegou num leilão. Também não afirma que a inadimplência caiu: subiu 0,2 ponto, para 4,3%. Nem que o resultado é livre de ciclo: a tesouraria cresceu 133% com juro alto, e isso é ciclo. O ROE de 16,2% não é recorde, é a segunda leitura acima do custo de capital depois de 15,2% no 4T25. E o mercado já precificou: a ação subiu cerca de 60% no ano.
 
No radar · 4 menções

Vivara 2T26: cresceu market share e reduziu dívida ao mesmo tempo. A Vivara encerrou o segundo trimestre de 2026 com participação de mercado de 25,4% em joalheria, alta de 2,7 pontos percentuais no ano, enquanto reduzia a dívida líquida em 57%. A marca Life cresceu 15,8% no trimestre com 45 novas lojas abertas em 12 meses. O sistema dual, Vivara premium e Life acessível, cresce sem canibalização. No varejo, crescer e reduzir dívida ao mesmo tempo é quase uma anomalia. ler ›

Riachuelo 2T26: 12 trimestres seguidos de crescimento de vendas nas mesmas lojas. Lucro recorde de R$ 167,9 milhões (+36,2%), margem bruta de vestuário de 59,2%. Crescimento de vendas em mesmas lojas (SSS) pelo décimo segundo trimestre consecutivo. A fábrica própria em Natal (RN) produz o que o estoque pede, não o que o fornecedor empurra. Controle de cadeia é sistema. O varejo que mais fala em commodity é o mesmo que prova que cadeia própria é sistema. ler ›

Munich Re H1 2026: renunciou €1 bilhão e entregou €3,9 bilhões de lucro. A maior resseguradora do mundo reduziu o volume renovado em 9,1% e cortou a projeção de receita de €40 bi para €38 bi. O lucro do semestre: €3,9 bilhões. Combined ratio de 88,4%. O CEO foi direto: a Munich Re pode recusar negócio onde o preço não cobre o risco. E recusa. 170 anos de dados de underwriting sustentam esse critério. Não se copia em 12 meses. ler ›

Agronegócio brasileiro 2026: caminha para recorde de falências. O setor que representa cerca de 30% do PIB lidera os índices de insolvência em 2026. Quebra de safra, preços de commodity em baixa e endividamento pesado. É o contra-exemplo da tese: crescer em volume de commodity sem construir sistema de valor não protege quando o ciclo vira. E é o contraponto exato do case de hoje. O Bradesco tem um histórico de décadas sobre cada cliente e a discussão é se ele vai usar. Quem vende saca de commodity não tem histórico nenhum para usar, porque a saca não guarda quem a plantou. ler ›

 
Mauricio Schneider
Mauricio Schneider
Especialista em Descomoditização
 
Radar da Descomoditização
Você recebe este radar porque se inscreveu na newsletter do Mauricio Schneider.

Gostou desta edição? O Radar chega assim, de graça, no seu e-mail.

Assinar o Radar