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Radar da Descomoditização
9 de agosto de 2026  ·  1 case, 4 menções
Case do dia
O Iguatemi vendeu 4 shoppings em 2026. E lucrou 22% a mais.
11% menos área. O mesmo trimestre. Resultado diferente.

Eles tinham 448 mil metros quadrados próprios de shopping. Decidiram vender participações em quatro empreendimentos, por R$ 372 milhões, e ficar com 400 mil. Redução de 11%.

No mesmo trimestre, o lucro recorrente subiu 22,1%. A receita por metro quadrado foi de R$ 660 para R$ 762, alta de 15,5%. Taxa de ocupação: 96,9%. Inadimplência líquida: 0,1%.

Isso não aconteceu apesar da redução. Aconteceu por causa dela.

 
O mecanismo.

Cada ativo mediano que você mantém no portfólio puxa a média para baixo. Não só financeiramente. Na percepção de marca também: o "Iguatemi" que significa premium perde coerência cada vez que aparece num empreendimento de segunda linha.

Quando você elimina o mediano, o que sobra entrega melhor. Lojistas de alto padrão escolhem poucos endereços. Com o portfólio concentrado nos premium, o Iguatemi tornou-se mais atrativo para exatamente os inquilinos que pagam mais.

A ocupação subiu. A inadimplência caiu. O resultado por metro quadrado cresceu 15,5%.

 
A lógica que a maioria inverte.

A lógica padrão é: mais área, mais receita. Mais clientes, mais faturamento. Mais contratos, mais resultado.

O Iguatemi inverteu. E deu certo. Porque crescimento por quantidade é mais fácil de medir, mas a métrica que importa é resultado por metro.

O problema da expansão indiscriminada: ela dilui a média. Cada ativo mediano que você mantém no portfólio não só performa pior, ele contamina a percepção do que você vale. Quando o Iguatemi se livrou dos shoppings fora do padrão, os que sobraram respiraram melhor.

 
Por que importa para o seu negócio.

Isso não é estratégia de shopping center. É a decisão que qualquer negócio pode tomar: parar de carregar o que não valoriza o que você faz, e concentrar a operação em quem paga pelo que você vale.

A métrica da concentração é mais difícil de defender. Ela pede que você abra mão do que parece crescimento para entregar o que de fato é resultado.

O Iguatemi abriu mão de 11% da área e entregou 22% a mais de lucro.

Se você tirasse os 20% de clientes, projetos ou produtos que puxam sua média para baixo, o que aconteceria com o seu resultado por hora trabalhada?

Menos área, mais resultado por metro. Isso tem nome.
 
Resumo
O mecanismo é a concentração, não a venda
O Iguatemi não ficou mais lucrativo porque vendeu shoppings: ficou porque parou de diluir o que valia. Os R$ 372 mi da venda foram consequência, não causa. A causa foi a decisão de ter só o que pertencia ao padrão da marca.
Concentração no premium atrai mais premium
Com o portfólio enxuto, lojistas de alto padrão passaram a enxergar o Iguatemi como endereço mais interessante. 96,9% de ocupação e 0,1% de inadimplência são resultado de quem aloca espaço, não de quem aceita qualquer inquilino para cobrir vaga.
Mais de R$ 762 por metro quadrado: a métrica que importa
Era R$ 660 no mesmo trimestre do ano anterior. O setor mede grandeza por área total alugável. O Iguatemi passou a decidir por quanto cada metro rende. São duas leituras do mesmo negócio, e a escolha de qual você otimiza define para onde você cresce.
O que este case não afirma
Que qualquer negócio pode cortar clientes hoje: a condição para cortar é ter sistema suficiente no que sobra. Que o Iguatemi está imune a ciclo: demanda por varejo premium sofre em recessão. Que a causalidade é matemática: o mecanismo é plausível e consistente com os dados, não provado em laboratório.
 
No radar · 4 menções

Munich Re: operação que pode recusar negócio que não cobre o risco. A maior resseguradora do mundo publicou o resultado do primeiro semestre de 2026. Lucro de €3,9 bilhões. Combined ratio de 88,4%, que em resseguros significa operação muito eficiente. No mesmo período, eles reduziram o volume renovado em 9,1% e cortaram a projeção de receita de €40 bi para €38 bi. Porque o preço de alguns contratos não cobria mais o risco. O CEO Jurecka foi direto: a Munich Re pode recusar negócio onde o preço não cobre o risco. E recusa. Esse posicionamento tem nome: sistema de underwriting que 170 anos de dados sustentam. ler ›

Riachuelo: lucro recorde com vendas menores. A Riachuelo entregou R$ 168 milhões de lucro no segundo trimestre de 2026, alta de 36,2%, o maior segundo trimestre da história. A receita de mercadorias cresceu só 2,3%, enquanto o lucro cresceu 36%. A margem bruta de vestuário foi a 59,2%, recorde, e já são 11 trimestres seguidos de expansão. O diferencial que o mercado não copia: a fábrica própria em Natal (RN), única entre varejistas de moda brasileiros, que permite resposta ágil à demanda e captura direta da margem. 12 trimestres consecutivos de crescimento de vendas mesmas lojas. ler ›

Agronegócio em crise: recorde de falências em 2026. O setor que representa cerca de 30% do PIB brasileiro lidera os índices de insolvência neste ano. Preços de commodity em baixa, quebras de safra e endividamento elevado. É o contra-exemplo da tese: crescer em commodity sem construir sistema de valor não protege quando o ciclo vira. A pergunta que este recorde levanta é a mesma que o Iguatemi respondeu de um jeito e o agro respondeu de outro: você compete por metro quadrado ou por metro quadrado que vale mais? ler ›

Inter 2T26: margem financeira acima de 10% pela primeira vez. O banco digital atingiu 10,1% de NIM (margem financeira líquida), recorde histórico, num momento em que os bancos tradicionais sofrem pressão de inadimplência. O crescimento não veio de volume de carteira bruta, mas de mix de produtos com mais garantia e maior spread. A seleção de risco como motor de margem, não de volume. ler ›

 
Mauricio Schneider
Mauricio Schneider
Especialista em Descomoditização
 

P.S. do livro

Este Radar é o livro.

Enquanto fecho o Radar toda semana, estou fechando o livro. Não escrevi porque li. Escrevi porque vivi, e quebrei a cara o suficiente pra saber o que é sistema e o que é sorte. Sai em outubro de 2026, pela Alta Books.

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