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Radar da Descomoditização
2 de agosto de 2026  ·  1 case, 4 menções
Case do dia
A Oi foi à falência. A Vivo lucrou 17%. Eram do mesmo fio.

Na edição anterior eu mostrei por que o preço da Oi não foi estratégia: foi o que restou quando as outras alavancas acabaram. Ficou uma pergunta em aberto, e ela é incômoda. Se a queda da Oi se explica pela dívida e pela obrigação regulatória, então o que exatamente a concorrente fez de diferente?

Hoje é o outro lado da mesma rede.

A Oi e a Vivo construíram o Brasil de fibra ótica juntas. Usaram a mesma tecnologia e disputaram os mesmos clientes.

O que elas não tiveram foram as mesmas regras. A Vivo negociou a saída do regime de concessão e comprou o direito de parar de investir em cobre deficitário: valor presente estimado em R$ 2,1 bilhões, cerca de R$ 300 milhões por ano. A Oi ficou presa na obrigação, e a conta para migrar depois foi de R$ 5,8 bilhões em contrapartidas. Guarde esses dois números, porque eles descontam parte do que vem a seguir.

Em 2022, a Oi entrou em recuperação judicial com mais de R$ 65 bilhões em dívida. Vendeu sua rede de fibra para o consórcio V.tal e encerrou a operação residencial.

Em 28 de julho de 2026, a Vivo divulgou o resultado do segundo trimestre: lucro de R$ 2,07 bilhões, alta de 17%. EBITDA de 41,8%. Receita crescendo 7,6%. A operação de fibra passou de 32 milhões de casas cobertas, com 8,2 milhões já conectadas.

Mesma tecnologia. Resultado oposto.

A leitura.

O fio de vidro é commodity. Custa centavos por metro. Qualquer empresa pode comprar.

O que não se compra num catálogo é o que vem depois do fio: a infraestrutura passada embaixo de dezenas de milhões de endereços, o cliente corporativo que integrou cloud e PABX no mesmo contrato, o bundle que quebra quando alguém tenta sair, o ativo imobilizado que está no balanço há 20 anos e não vai a lugar nenhum.

A Vivo está construindo sistema dentro de uma operação que ainda tem a maior parte da receita em cotação. O Mobile é 64,6% da receita, opera com quatro concorrentes e portabilidade ativa.

Mas a operação de fibra residencial (FTTH, 13,6% da receita) e o B2B corporativo (9,3%) crescem mais rápido que o Mobile. São as duas linhas com custo de saída estrutural. Juntas representam 22,9% da receita. A cada trimestre, esse percentual sobe.

A Oi fez o oposto: cresceu em tudo ao mesmo tempo. Fixo, mobile, fibra, TV, data center, torre. Cada frente precisava de capital. Nenhuma ficou funda o suficiente para segurar a operação quando o custo da dívida pesou.

Descontada a régua regulatória, o que sobra não é diferença de visão. É diferença de profundidade. E essa parte não tem desculpa de ambiente: nenhuma regra obrigou a Oi a abrir seis frentes ao mesmo tempo.

Fibra enterrada não se desenterra. O sistema não está no produto. Está no subsolo.

Por que importa para o seu negócio.

A lição do case Vivo vale para qualquer setor: uma fatia menor da operação, mais profunda, pode carregar a margem de toda a empresa. Mas só se você parar de crescer em tudo e começar a aprofundar o que não sai tão fácil.

Na sua operação: qual é o 22% que tem custo de saída real? E você está aprofundando esse 22%, ou ainda distribuindo capital por dez frentes ao mesmo tempo?

Cresceu em tudo
Ficou funda em nada
 
No radar · 4 menções

Embraer: 7º recorde de carteira, US$ 34,5 bilhões. O C-390 recebeu o maior pedido individual fora do Brasil. E o E175 domina cerca de 80% do mercado regional americano protegido por uma scope clause nos contratos dos pilotos que nenhum concorrente consegue romper enquanto os acordos coletivos vigentes se mantiverem. Certificações aeronáuticas levam décadas. O backlog da Embraer é em parte consequência de um lock-in regulatório involuntário que poucos percebem como sistema.

Vale: lucro caiu 35% no 2T26. A causa: queda no preço do minério. A Vale tem as melhores minas do planeta, tecnologia sofisticada, posição dominante global. E ainda assim perde 35% do lucro num trimestre quando o mercado muda o preço do output. A singularidade geológica de Carajás é difícil de copiar, mas não protege a margem quando o preço do produto é determinado pela cotação global. Contraste direto com a Embraer e a Vivo nesta mesma temporada de resultados.

Dasa volta ao lucro com a Alta Diagnósticos. A Dasa reverteu prejuízo com o segmento premium. Estuda expandir a marca Alta para até 4 novas regiões onde há "demanda potencial e oferta limitada de serviços premium". O segmento básico compete por preço. A Alta compete por médico âncora e equipamento de alta complexidade. O turnaround não foi da empresa inteira: foi do segmento que se recusou a entrar na guerra de preço.

Shell Q2 2026: lucro de US$ 9,84 bilhões com produção recorde no Brasil. Exploração em águas ultra-profundas (2.000m de lâmina d'água) exige décadas de desenvolvimento tecnológico e capital que poucas empresas no mundo têm. O petróleo é commodity. A engenharia de subsalt em ultra-deep water não é. Commodity de produto não significa ausência de sistema no processo.

Na sua operação, qual é o 22% que tem saída difícil?
Mauricio Schneider
Mauricio Schneider
Especialista em Descomoditização
 

Este Radar é o livro.

Enquanto fecho o Radar toda semana, estou fechando o livro. Não escrevi porque li. Escrevi porque vivi, e quebrei a cara o suficiente pra saber o que é sistema e o que é sorte. Sai em outubro de 2026, pela Alta Books.

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